Política Perversa dos Abutres Sociais

Você entra na loja de calçados. Não sabe, mas está entrando um universo paralelo. Quer um par de chinelos (20R$). Decidiu que é suficiente para você. A disposição das gôndolas cria ilusão de trilhas. Primeiras gôndolas: calçados baratos e feios; fundo da loja: cores atraentes, posters de corpos construídos em Photoshop. Seu cérebro se excita com o melhor lugar da loja: cores interessantes, imagens de pessoas de bem com vida

Nota: esta reflexão não é continuação do ensaio Não Sabe Votar, Voto Inconsciente, Voto de Cabresto, mas é complemento

Ter É Melhor que Ser

Abutres Sociais permanecem à espreita pelo tempo que for necessário

Abutres Sociais permanecem à espreita pelo tempo que for necessário – Foto: Autor Desconhecido

Instintivamente você segue a trilha do sucesso. No fundo da loja, precisa sentar-se para experimentar chinelos; seu cérebro ali percebe um mundo melhor: informações sobre cartões de crédito, facilidades de compra, vendedores atenciosos usando roupa da moda, canções despojadas na caixa de som, tela de TV que jamais mostra catástrofes ou gente pobre; somente sorrisos e felicidades.

Esse é seu mundo. Não há chinelos de 20,00R$, somente sapatos de 60R$, 80R$, 100R$. Ora, se encontrou seu mundo, precisa viver nesse mundo. Sai da loja com a certeza de que comprou exatamente o que queria: sapato de 100R$. Era isso que queria o tempo todo.

Isso acontece no shopping, no supermercado, na TV. A notícia da bala perdida na testa da criança de 04 anos, anunciada há segundos pelo âncora do telejornal, é esquecida com o virar de corpo do mesmo âncora para olhar para a câmera 04 e anunciar – sorriso aberto – que a inflação diminuiu. Depois, lê a estatística sobre violência urbana: baixou. Com sorriso mais largo ainda.

Tudo isso entra no cérebro como mensagem indireta e faz que a bala perdida na testa da criança seja perdida nas lembranças.

Abutres Sociais

No bairro vizinho, uma pessoa teve dificuldades para estudar. Trabalha, salário baixo, casa-se (isso ainda é instintivo no ser humano) e constitui família. Procura lugar para morar, encontra local ermo na periferia. Loca-se com certa facilidade.

(Ao longe, abutres sociais estão à espera de que mais dois ou três descubram o local.)

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Abutres Sociais à espera de oportunidades

O primeiro que chegou comenta com parente que ocupou terreno com tranquilidade. Esse parente resolve ocupar o adjacente.

(Os abutres sociais estão à espreita. Esperando a época de eleição.)

Em menos de meio ano, o local já tem dez moradias irregulares.

(Os abutres sociais torcem para que outros venham.)

Mas há poucos moradores. Os abutres se aproximam e se penalizam com as condições. Oferecem cesta básica mensal. Imediatamente, os moradores divulgam que, além de tudo, ali tem cesta básica.

Outros abutres chegam; oferecem trabalho: levar pacotinhos a algumas casas.

Os pequenos trabalhadores moram em barracos feios, pútridos; vão levar pacotinhos em casas com janela de alumínio.

Alguns pequenos trabalhadores são pegos pela polícia; os patrões os livram por meios incertos. Os pequenos se sentem assistidos. E propagam que, além de terreno e cesta básica, têm trabalho e segurança.

Marketing Perverso de Política Perversa

abutres2Mais pessoas ocupam terrenos. Os abutres sociais sorriem. Pouco tempo mais, o local está cheio de moradias irregulares.

Período eleitoral. Os abutres sociais visitam o local. Usam roupas limpas, têm barba bem feita, carros, perfumes. Indignam-se com as condições. “Como é possível que não sejam vistos pelo prefeito atual? Por que os vereadores não ajudam vocês?”

São candidatos; conhecem o tio do vizinho do carpinteiro que um dia trabalhou na casa do delegado que é amigo da tia do pai do vizinho do prefeito. Se forem eleitos, vão transformar o local, dar residência, escola, saúde. “Onde já se viu… viver num lugar assim?”. Vão embora, magnânimos, justiceiros, poderosos.

Dia seguinte, outros abutres sociais. Mostram documento que ninguém ali entende e dizem que é atestado de posse. Quem mostra o documento esteve no dia anterior com o tal homem poderoso. Então, deve estar tudo certo.

Marcam de voltar depois para assinar contrato e apanhar os 3000R$, 5000R$. É deixado documento assinado, carimbado.

Alguns dos abutres são eleitos. Desaparecem. Chegam os que não foram eleitos e dizem que os todos ali continuam com problemas porque elegeram pessoas erradas; eles, sim, trarão melhorias.

Então, tudo recomeça. Passam-se duas, três, quatro eleições…

E Nada Acontece

Durante o passar desse tempo, uma pinturazinha na fachada de um barraco aqui conseguida pelo amigo que conhece um vereador, um asfaltozinho na ruazinha ali divulgada como grande obra por indicação de outro vereador, o portãozinho da escola do bairro ao lado arruado; ações que alimentam esperanças.

Mas nada acontece.

Passados 20, 30 anos, os abutres eleitos trocam de cargo entre si, mas nunca deixam o Poder. Mais fortes com o tempo, constroem novas relações com abutres mais sanguinários. Aumentam os bens e, assim, o Poder e conta bancária. Já podem comprar votos, decisões, dar um agradozinho melhor aos eleitores.

Um deles pode ser dono de imobiliária. Imagina grande empreendimento em local já escolhido: periferia da cidade, que está ocupado há décadas. Mas poucos têm documento que vale alguma coisa. “A gente tira aquela gente dali com um assinar de documentos. Afinal, é a Lei.”

E tudo continua como dantes.

1 comment for “Política Perversa dos Abutres Sociais

  1. Mileine Navarro
    03/03/2016 at 4:35 pm

    Serg Smig isso me lembra um passado não muito distante misturado a um presente confuso, quando cinco ou seis ingênuos se indignaram com a situação de moradores de uma favela local.
    Metade dos moradores foram tirados, os lobos maus ficaram, os abutres ficaram nervosos e os cinco ou seis foram parar na frente do Juiz.
    E então … bem depois descobre-se que tudo começou com a intenção de comprar um chinelo.

    Aaah! Foi uma lição de vida e tanto.

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