Marcha das Vadias: o empoderamento feminino

Algum de vocês já pode ter se deparado nas ruas com um grupo majoritariamente formado por jovens mulheres nuas e seminuas com desenhos pelo corpos ou cartazes de protesto. Quem são elas e o que elas estão fazendo ali? Por que elas se autointitulam vadias? Estamos falando da SlutWalk, batizado no Brasil como Marcha das Vadias.

Tudo começo em Toronto, no Canadá, quando dois policiais proferiram na Universidade de York no início de 2011 uma palestra sobre prevenção de crimes, em especial os recorrentes estupros em campus universitários. Na ocasião, Michael Sanguinetti, um dos policiais palestrantes, afirmou que: “As mulheres deveriam evitar se vestir como vadias a fim de não serem vitimizadas”. Este comentário gerou bastante polêmica, tanto o policial quanto o reitor da universidade se pronunciaram pedindo desculpas pelo ocorrido.

Manifestante na Slutwalk de Toronto

Cartazes afirmam: “Vadias = Dignidade” e “Vadias também têm sonhos”

Todavia, um grupo de mulheres decidiu não aceitar mais esta forma de opressão e ressignificou a palavra “slut” (vadia) como uma pessoa que tem controle de sua própria sexualidade. O grupo organizou a primeira Slutwalk, realizada em Toronto no dia 3 de março de 2011. O protesto foi um sucesso, mais de 3.000 pessoas compareceram vestidas de vadias em favor do livre empoderamento sexual feminino e do fim da cultura do estupro.

Manifestantes saem à rua no Equador

Marcha de las Putas no Equador em 2014

Em menos de cinco anos, a Marcha das Vadias tornou-se um movimento transnacional, sendo realizada nos seguintes países: Argentina, Uruguai, Chile, Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Venezuela, México, Suíça, Reino Unido, Coréia do Sul, Índia, Cingapura e, claro, Brasil.

Manifestantes brasileiras

Marcha das Vadias no Rio de Janeiro

Ainda em 2011 a Marcha das Vadias chegou ao Brasil, sendo primeiro realizada em São Paulo e, ainda neste ano, em Belo Horizonte, Brasília e Recife. Até a presente data, o protesto também ocorreu em Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Rio de Janeiro, Vitória, Salvador, Maceió João Pessoa, Fortaleza, Teresina, Goiânia, dentre outras.  

Assédio verbal

Rótulo de “Vadia”

Surgida de uma polêmica, a própria Marcha das Vadias trouxe suas próprias polêmicas. Alguns estudiosos apontam que o uso da palavra “vadia” apenas demonstra a aceitação pelas mulheres de um misógino rótulo criado pelos homens para julgar as mulheres. Outros apontam que a grande maioria das mulheres em destaque no protesto apresentam corpos nus ou seminus que satisfazem o padrão de beleza imposto às mulheres, reforçando a necessidade de ter um corpo perfeito. Alguns declaram que este protesto tornou-se uma ferramenta de promoção da cultural sexual através da promiscuidade, ou seja, a pornografia disseminada nos atos fez com as vítimas de assédio internalizassem o abuso. Outros, ainda, alegam que somente através do engajamento no campo legislativo será possível mudar a opressão sexual sofrida pelas mulheres. Todavia, uma das grandes discussões aqui no Brasil tem sido a falta de integração de mulheres negras no movimento.

Negra Livre

Feminismo negro

Vários relatos de mulheres negras constatam a dificuldade de integração em um grupo majoritariamente formado por mulheres brancas, universitárias e classistas. As pautas defendidas pela maioria, por sua vez, não abarcam as necessidades de todas as mulheres, apesar das mulheres negras exporem suas questões, paixões e dores, reforçando o histórico racismo presente no movimento feminista brasileiro. Ademais, a própria palavra “vadia” é vista com imprópria uma vez que ser vista como uma vadia já faz parte do cotidiano da mulher negra. Ao contrário das mulheres brancas, estas não se podem dar ao luxo de admitir uma vez no ano que são vadias, elas tem que lidar com a opressão diariamente.

Então, o que você acha da Marcha das Vadias? Esta é a melhor forma de lutar pelos direitos das mulheres? Este protesto deve ser aliado com outras manifestações? A visibilidade ajuda ou só piora? Se chamar de vadia vai mudar algo? Se não, como as mulheres devem se chamar? O que deve ser feito para uma real inserção das mulheres negras neste movimento? Por que o feminismo brasileiro continua fragmentado? Estas questões podem não ter respostas imediatas, entretanto, é necessário discuti-las.

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